“No Brasil, entre entrevista e entrevista, fico a conhecer duas notícias: uma, a má, a terrível, que o temporal que de vez em quando desaba sobre São Paulo para deixar, minutos de fúria depois, um céu limpo e a sensação de que não se passou nada, no sul causou pelo menos 59 mortos e deixou milhares de pessoas sem casa, sem um tecto onde dormir hoje, sem um lar onde seguir vivendo. Notícias destas, apesar de tantas vezes lidas, não podem deixar-nos indiferentes. Pelo contrário, cada vez que nos chega a voz de um novo descalabro da natureza aumenta a dor e a impaciência. E também a pergunta a que ninguém quer responder, embora saibamos que tem resposta: até quando viveremos, ou viverão os mais pobres, à mercê da chuva, do vento, da seca, quando sabemos que todos esses fenómenos têm solução numa organização humana da existência? Até quando olharemos para outro lado, como se o ser humano não fosse importante? Estas 59 pessoas que morreram em Santa Catarina, neste Brasil onde estou agora, não tinham que ter morrido de esta morte. E isto, sabemo-lo todos.”

Do Caderno de Saramago.

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– Filha, entra no Google e busca enchente Itajaí.
– Pelamordedeus, mãe, não exagera, vai. Conta logo, tá chovendo por aí?
– Não, Amanda, é enchente mesmo. Daquelas do ano em que vocês nasceram, talvez pior.

Não assimilei. Falei com a tia, com a vó, com a amiga, mas só com imagens é que a gente entende. Santa Catarina está debaixo d’água!! Entende??

Somos outra vez afortunados e minha família não foi afetada. Nossas casas tão inclusive servindo de abrigo pros parentes e amigos que tiveram que sair das suas. Não interessa a cultura, o dinheiro ou a posição social. É no bairro rico e no bairro pobre, no asfalto e na ruela. A chuva começa, não pára nem bate na porta. Dizem que chega entrando.

Eu daqui, sinto a minha ignorância perante o meu próprio país. E praquela que há tempos não se sentia impotente, taí um motivo real pra colocar os pés no chão.

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